Conto

Nada é por acaso

Chovia muito no interior de São Paulo quando Marcelo, um chefe de família muito dedicado, chegou a casa segurando uma caixa grande com a tampa entreaberta. Depois de cumprimentar a mulher, que lhe perguntara sobre o que havia dentro da caixa e fazer careta enquanto reclamava do que havia visto, a pequena filha do casal descia as escadas entusiasmada para mostrar o desenho que ela estava fazendo a dois dias.

A garotinha, de cabelos curtos e castanhos claro, saltitava balançando a folha com o desenho, o pai se abaixou para cumprimentá- la e antes mesmo de falar ” oi” ou qualquer outra coisa, ela abraçou o pai, colocando a folha na frente do rosto.

— Olha o que eu fiz papai. Esse é você, mamãe, eu e meu irmão.

O pai sorriu de maneira forçada ao parabenizá- la pela arte.

—Que lindo! Isso merece um presente, lave as mãos e vamos jantar que depois eu te entrego o que trouxe pra você. A menina subiu as escadas com todo o vigor de uma criança de nove anos; o pai, ao vê- la se afastar virou para a mãe e disse:

—Eu lhe falei que contar para ela a história do irmão não seria uma boa idéia.

—Eu achei que isso faria com que ela se sentisse menos solitária. – Retrucou a mãe, sentada na cadeira da mesa de jantar.

—Ela já tem uma imaginação fértil, não sei se alimentar esta idéia foi uma boa opção, por isso eu trouxe o presente.

Os pais preocupados conversavam sobre o ocorrido do Natal passado, em que a pequena menina pedira ao papai Noel por um irmãozinho. Sua mãe, não poderia realizar o pedido nem se quisesse, seria uma gravidez de risco e a menina poderia acabar sem a mãe e o irmão. A mãe dela então, contou- lhe que antes de engravidar da pequena, ela engravidou de um garoto, mas perdeu no terceiro mês de gestação. Desde então, Giovanna desenha e age como de o irmão estivesse presente e talvez, ele realmente estivesse.

Não demorou muito para que ela voltasse e sentar- se à mesa para jantar. Eles eram uma família comum, não muito rica e nem pobre, qualquer um que olhasse diria que eram felizes e não tinham problemas. Após o jantar, enquanto a mãe e o pai lavavam a louça, Giovanna foi escovar os dentes e terminar o dever, quando terminou, todos se reuniram na sala. Era uma cena bem feliz, a garota sorriu ao ver a caixa que o pai colocara à frente dela e terminou de abrir a tampa. Ao jogar o corpo para frente para ver melhor dentro, ela gritou baixo algo que parecia um “ah” e retirou da caixa um filhote o abraçando. Era um cachorro bem pequeno, com pelagem cumprida e mista, nas patas e na cabeça a cor era clara, lembrava um dourado e no resto do corpo era preto.

— Qual é a raça?- perguntou a garota radiante

— Yorkshire. – respondeu o pai sorrindo

— Ele é tão lindinho, o nome dele vai ser Billy- ela abraçou o pequeno filhote que relutava em ficar esmagado entre os braços de Giovanna.

A menina brincou com o pequeno filhote de York por uma hora antes de deitar, os dois correram pela sala brincando de pega-pega, claro que ela era sempre a pegadora e todas as vezes que conseguia alcançar Billy ela o beijava e o espremia, o filhote parecia não ligar.
Depois de brincar, Giovanna foi com os pais resolver aonde eles colocariam as coisas do novo membro da família. A mãe votou por colocar o cachorro na lavanderia, em um canto perto do armário, mas a menina não quis, ela queria levar o filhote pro quarto dela o que acabou gerando uma pequena discussão entre eles, a primeira de muitas que surgiriam.

— Não vou deixar que ele fique sozinho aqui em baixo. – reclamava a menina.

— Mas ele não pode ficar no seu quarto, senão ele acostuma, além disso, ele tem que sabe o lugar dele – respondeu a mãe com serenidade.

— Mas por quê? Não seja dura com ele, coitadinho. Ele vai ficar sozinho e aqui é muito longe, se ele precisar de ajuda à noite eu terei que descer as escadas no escuro? – continuou a menina.

— Por que não o deixamos lá em cima, no quartinho embaixo da escada que vai para o sótão? Assim ele tem o lugar dele, não atrapalha ninguém e é mais fácil de ver se ele está bem. – sugeriu o pai.

— Ok não têm nada lá mesmo, assim ele não tem o que estragar.

Giovanna levantou- se com um salto e pegou o pequeno Billy no colo levando- o até o novo quarto dele. O pai dela veio logo atrás com a pequena cama e o cobertor dele. A mãe da menina subiu com várias folhas de jornal para forrar o piso do local. Eles colocaram a cama do lado esquerdo, a bolinha no chão ao lado da cama, os potes com água e ração no lado direito encostados à parede e forraram o colchão da cama com o cobertor dele.

— Ficou certinho! Ele tem espaço pra dormir, pra comer e até um espacinho pra brincar. – comentou Giovanna

— Feche a porta Giovanna e abra a portinha de ventilação, vamos deixá- lo assim hoje, não quero que ele faça xixi aonde não deve. – disse a mãe firme.

A menina fez o que a mãe pediu, deu um beijo no filhote e foi dormir. No dia seguinte, a primeira coisa que ela fez ao se levantar foi ver o filhote, que já estava solto e brincando pelo quintal,Giovanna sorriu, pegou seu caderno de desenho e foi até lá, sentou em nos degraus e começou a desenhar. Billy deitou-se ao lado da menina quando cansou de correr e não deixava ninguém chegar perto, sempre rosnando e latindo quando alguém se aproximava. A menina se frustrou por não gostar do desenho que havia feito, sempre exigente demais, ela desistia quando algo não a agradava. Billy a olhou por segundos após a garota ter jogado seu lápis perto do filhote, ele levantou pegou o lápis e o colocou em cima da folha. Giovanna o encarou tentando entender o que o olhar dele significava, ele empurrou com o focinho o lápis novamente, ela sorriu e retomou o desenho, ele não a deixou desistir e aquela foi apenas a primeira vez que aquilo acontecia. Durante anos, o cachorro que não era mais filhote, ajudara a dona, uma jovem que crescia enfrentando as dificuldades normais da vida, uma jovem que tentara desistir várias vezes, de desenhar, de escrever, de atuar. Felizmente, Billy sempre esteve lá para ajudá-la a continuar, ele possuíam uma ligação que nem mesmo Giovanna entendia, mas muitas vezes ele havia salvado a vida dela, pelo menos era como ela via.

Certo dia, Marcelo chegou em casa arrastando a perna, com dificuldade para andar, ele ficou daquele jeito por dois dias, Billy parou de guardar a jovem para zelar pelo pai, acompanhou Marcelo por um dia todo, encostando o focinho nele, no dia seguinte o pai esta ótimo, mas o cachorro não. Billy perdera os movimentos das patas traseiras, Giovanna chorava muito por achar que ele já estava velho e poderia falecer a qualquer momento. A jovem de 23 anos cuidou do cachorro, dando os remédios e pagando o veterinário, ele melhorou com algumas sessões de acupuntura, mas um ano demais houve outro incidente.

Giovanna foi internada às pressas no hospital para fazer cirurgia intestinal, ela corria risco de morte se não a realizasse, após uma semana internada, ela pôde voltar para casa Billy a recepcionou abanando o rabo como sempre fazia e durante os últimos seis meses de vida, ele protegeu Giovanna como podia, nunca a deixando desistir dos sonhos. O cachorro faleceu subitamente com infecção intestinal.

A jovem se despedaçou em lágrimas, não havia nada a ser feito. Ela não queria ir para a faculdade e passava todos os dias vendo os objetos do animal que ainda estavam pela casa. Em uma manhã de Segunda feira, Giovanna foi forçada a sair de seu luto e depressão para fazer a última prova da faculdade de Letras. No caminho, ela encontrou uma mulher cega que lhe pedira ajuda para atravessar a rua, a mulher tocou o ombro de Giovanna e lhe disse que sentia muito pela perda do animal. Giovanna se assustou, mas não disse nada, nem perguntou como ela sabia, apenas agradeceu. Quando ambas chegaram do outro lado, a mulher pediu para que ela colocasse uma flor de cor violeta ao lado da cama e que imaginasse o animal junto à ela antes de dormir. Apesar de receosa, ela o fez.

Giovanna imaginou Billy ainda pequeno no colo dela em pouco tempo flores apareceram no local, formando um jardim e o cachorro  pulou do colo e desapareceu, ela o chamou, mas o que ela viu foi um menino, o loiro, de olhos castanho sorrindo para ela.

—Quem é você?- ela pergunta

— Você se formou. Parabéns, eu sempre insisti pra que nunca desistisse.

Ele respondeu sorrindo

Giovanna o encarou por um tempo, ela sabia que o conhecia de algum lugar.

— Billy?- exclamou desacreditada

O garoto sorriu, pedindo para que ela lhe chamasse pelo nome, Nathanael.

— Mas como? Um menino?

— Sim, este sou eu, era assim que era para eu ser em forma humana como seu irmão.

— Irmão? Você é meu… Ele foi abortado, não pode ser por quê?
—Porque eles cometeriam os mesmo erros que cometeram com você comigo e minha missão não seria cumprida, como eu poderia te ajudar?
— Mas porque um cachorro?
—Como um cachorro eu tivesse mais sensibilidade para ajudar, eu fazia por instinto o que era pra ser feito. Eu sofri por vocês.

Giovanna sorriu, ela sentiu uma paz enorme e certo conforto em estar lá com seu irmão e esclarecendo algumas das muitas dúvidas que ela tinha. O garoto sorriu também, mostrando os dentes brancos, formando pequenas covas ao lado da boca.
A jovem abraçou o garoto que tinha metade da altura dela, um abraço tão apertado daqueles que era difícil de largar. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Giovanna, uma lágrima de alivio, de felicidade, de emoção.
Ele a soltou devagar, ainda sorrindo para a irmã, disse:

— Estarei sempre aqui. Continuo com você como sempre foi.

Ela sorriu entendendo que nada foi por acaso. A imagem do jardim e do irmão desapareceu, a jovem abriu os olhos devagar voltando ao quarto, levantou- se de sua cama, sentando na mesma com os joelhos dobrados e os braços apoiados neles. Ela ficou ali parada por um tempo, sorrindo de canto, sentindo- se leve e feliz, a dor de ter perdido o seu cachorro, melhor amigo e irmão não a afetava mais. Giovanna não o via mais, contudo, podia senti-lo.

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10 thoughts on “Conto

  1. Leandro de Mattos says:

    Muito legal! Gostei da ideia do cachorro tomar as enfermidades sobre si para salvar a família. Todavia desde do inicio estava aparente que o cachorro era o irmão. Mas mesmo esse fato ter tido ficado obvio, o texto ainda me prendeu e eu queria saber o final. Gostei!

    • C.David says:

      Olá, estou muito agradecia pelo comentário e desejo saber mais sobre a sua interpretaçã0 =)
      O que denunciou o parentesco do cachorro com ela logo no início sa estória? Como descobriu?
      Fico feliz que tenha gostado =)

  2. Vitor Costa says:

    Sua história me recordou um filme que vi na infância, chamado “Lembranças de Outra Vida”.

    Emocionei-me de verdade, embora ache que algumas partes ficaram muito corridas, principalmente o passar do tempo, os fatos muito rápidos, sem tempo de refletir.

    De resto, ótima história.

    Beijos

    O Mundo Em Cenas

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